No dia 17 de abril de 1996, o Brasil assistiu a um dos capítulos mais brutais da sua história recente. Na chamada Curva do S, em Eldorado dos Carajás, no sul do Pará, mais de vinte trabalhadores rurais sem terra foram assassinados e dezenas ficaram feridos durante uma ação da Polícia Militar contra famílias que marchavam por reforma agrária. Muitas das vítimas foram executadas à queima-roupa, com sinais de mutilação e violência extrema.
Naquele dia, cerca de 1.500 trabalhadores e trabalhadoras rurais ocupavam a rodovia PA-150 para cobrar a desapropriação de terras improdutivas e o direito de viver da terra. Foram cercados por 155 policiais militares, que receberam a ordem de liberar a estrada “a qualquer custo”. Bombas, tiros, perseguição e execução transformaram o protesto em massacre. A violência foi tão grande que o episódio ultrapassou as fronteiras e fez do 17 de abril o Dia Internacional da Luta Camponesa.
Mais do que um crime isolado, Eldorado dos Carajás revelou ao mundo a estrutura fundiária desigual do Brasil. Um país onde poucas propriedades concentram enormes extensões de terra, enquanto milhares de famílias seguem sem acesso ao território, à moradia, ao alimento e à dignidade. A reforma agrária sempre foi tratada como ameaça por quem lucra com a concentração de terras, e a violência no campo se tornou ferramenta para impedir a organização dos trabalhadores rurais.
Trinta anos depois, o cenário mudou de nome, mas não de lógica.
Hoje, povos originários seguem enfrentando uma violência muito parecida com aquela que atingiu os trabalhadores sem terra em Eldorado dos Carajás. A demora nas demarcações, a expansão do agronegócio, a grilagem, a mineração e os ataques armados seguem transformando territórios em zonas permanentes de conflito.
Em Mato Grosso do Sul, por exemplo, o povo Guarani Kaiowá vive uma das situações mais graves do país. Retomadas de terras indígenas são constantemente alvo de ataques armados, cercos, ameaças e assassinatos. Recentemente, um indígena Guarani Kaiowá foi morto durante um ataque à retomada da Terra Indígena Iguatemipeguá I, em um episódio atribuído a pistoleiros. Outros indígenas ficaram feridos. A violência é tão frequente que o governo federal precisou criar um grupo específico para mediar os conflitos fundiários na região sul do estado.
Existe uma linha que liga Eldorado dos Carajás às retomadas indígenas de hoje: a ideia de que algumas vidas podem ser descartadas quando estão no caminho dos interesses sobre a terra.
O que para alguns parece apenas como um pedaço de chão cercado por documentos, cercas e disputas de propriedade, para muitos é território. E Território é outra coisa: é memória, é onde estão enterrados os ancestrais, onde se aprende a língua, onde se caça, planta, pesca, reza e cria os filhos. É onde existe a relação com os rios, com a mata, com os encantados e com tudo aquilo que sustenta a vida coletiva.
Talvez seja justamente por isso que a violência no campo continue se repetindo no Brasil. Porque quem olha para a terra apenas como mercadoria dificilmente consegue entender a dimensão da luta de quem a vê como condição de existência.
Lembrar Eldorado dos Carajás, 30 anos depois, é lembrar que a luta pelo território continua.




