Nascida na periferia de São Paulo em 1981, Anabela é moradora do Jardim São Luís, a autora começou sua trajetória no movimento de cultura em 1995, como atriz em coletivos periféricos como o Grupo Submundo de teatro e do Grupo de teatro Monte Azul, entre outros. A partir da fundação da Associação Trópis, entrou no percurso da educação popular em 1997, atuando em ONGs e movimentos populares que levou a sua formação acadêmica em sociologia, 2010. Sua atuação profissional se estende entre Organizações Sociais do Terceiro Setor e órgãos públicos como OS do Estado e a Casa de Cultura Municipal do Campo Limpo.
Atuou e foi co-fundadora do Coletivo Katu de educação e colaboradora em coletivas feministas como Fala Guerreira, Periferia Segue Sangrando, entre outras. Atualmente assumiu a presidência da Associação Cultural Bloco do Beco, que atua a 18 anos no Jardim Ibirapuera e coordena o Centro de Juventude da Fundação Julita.
A poesia é a linha de costura dessa trajetória, tendo poesias publicadas em coletâneas poéticas periféricas. Pesquisadora da trajetória feminina periférica no que se refere a política, gênero, raça e classe. A escrita está presente em sua vida como parte das reflexões recolhidas em sua atuação como mulher negrindígena, mãe, educadora, feminista e trabalhadora.
Você se considera negra índigena? Sim
De que etnia você é? Não sei
Então você é parda.
Quando era pequena achava estranho não ter cabelo crespo como meu irmão e minha mãe e não havia ninguém na família que eu conhecia de cabelos lisos. Minha mãe falava que eu era como minha avó Ernestina, que era indígena. Ela morreu quando minha mãe era adolescente. Meu avô Onildo, deu todos os filhos e inclusive minha mãe, acomodando em casa só o filho menor que seria criado por outra mulher que substituiria minha avó. Por isso não tive muito contato com minha família materna.
Tive ajuda de muitos amigos para me sentir confortável nessa afirmação, como Sassá Tupinambá e outros parentes que me ajudaram a ter confiança de me ver como indígena, mesmo sem aldeia e cultura direta. Para além do genótipo, que é a única herança direta que trago e pode ser contestada pela imagem indígena difundida midiaticamente. A ideia de indígena, foge a realidade de um povo que passaram por um genocídio sistemático.
Durante esse trajeto percebi que muita gente me lia parda e assim muitos dos indígenas ao nosso redor. Se um indígena tivesse recurso econômico e educação ele nunca seria lido como indígena se não soubesse de fato sua etnia.
Fui percebendo que o isolamento social e a imagem que a mídia construiu da população indígena trouxe um apagamento generalizado de nossas mazelas, reduzindo tudo a acentamento indigena, como se isso fosse suficiente diante de todos os males.
Segundo a Funai, a população indígena em 1500 era de aproximadamente 3 milhões de habitantes. No último censo do IBGE, de 2010, o Brasil tinha 896,9 mil indígenas
Já ouvi tantas barbaridades nessa trajetória, mas nada me atravessa mais que o fetiche indígena criado no Brasil que esconde a população indígena nos dados do IBGE entre pardos e não declarados.
Precisamos aceitar que eu, mulher negra indígena, existo, e estou cansada de resistir aos olhares desconfiados da minha origem, de quem sou.
Meus traços genéticos não remontam os parentes do Xingu, com isso não representam a imaginação nacional do indígena. Mas eles existem e conjugam outras das 305 etnias vivas que resistem. Olhem para ser “pega no laço” como a marca do estupro que me atravessa, e que nunca uso como referência da minha ancestralidade, lembrem do sangue indígena que foi derramado até 1538 e depois com meus descendentes africanos a partir dessa data que não sabemos ao certo se é realista.
Povos negros e indígenas, povos do genocídio, meus povos. Negros da terra Aby Ayala, negros de África, pele, corpo e alma que esse país ainda renega em sua contribuição de nação.
No mundo onde a apropriação cultural religiosa é sistemática, olhar para nós e vermos a cultura indígena é uma ação difícil. Todas as vozes que gritam dentro de mim, trazem com sigo um dialeto não presente atualmente. Ser indígena, também é ser miscigenada entre indígenas, grupos e aldeias.
Temos peles escuras e claras, cabelos lisos e crespos, lábios finos e grossos, altos e baixos, magros e gordos, assim como toda população desse planeta.
Nós, indígenas urbanos, queremos ser reconhecidos e respeitados, chega de apagamento. Chega de ter que justificar minha trajetória para usar um termo que de longe diz quem sou ou de onde vim. Escolher uma etnia é um privilégio. Sou Aranã, um clã tupinambá, como sei disso? Suponho. Minha avó e meu avô se deslocaram de Minas Gerais para Vitória da Conquista com minha mãe e meus tios, segundo minha mãe, andando, apesar de ter durado dias, segundo ela, essa trajetória não poderia ser muito grande. Em pesquisa encontrei essa povoação indígena nas divisas de Minas Gerais e Vitória da Conquista. Um povo caboclo como eu e de costumes que remontam os que eram fortes em minha mãe em suas histórias com minha avó. A historiografia oficial aponta para a extinção do povo Aranã ainda no século XIX. Contudo, o grupo Aranã contemporâneo remonta sua história a partir de um ancestral-Manoel Índio (também referido como Manoel Caboclo), que foi, segundo a memória oral de seus descendentes, um dos indígenas aldeados em Itambacuri, região do Vale do Rio Mucuri-MG. Assim a história indígena se constrói e se remonta, pelas histórias ancestrais, minha mãe me disse, hoje digo.
Essa é a história indígena, ser reconhecido pelo outro. Essa é a história humana também, o outro te identifica e você é ou passa a ser, ou se torna livre para. A questão atravessa a população indígena, negra, transgênero e tantas outras.
O movimento indigena urbano tem crescido muito, pela vinda de parentes aldeados para as grandes cidades, neles percebemos que a relação com a natureza é umbilical e que nós que nascemos longe da mata, das águas e dos animais, temos tristezas e saudades inesplicaveis que estão contidas nessas necessidades. Eu nunca consegui ficar muito tempo longe do contato com a natureza, pois ela me alimenta e me fortalece para a vida diária. Cultivo plantas, sou candoblessita, onde preservo minha necessidade da ritualidade religiosa ancestral. Preciso do rito, preciso da natureza, esses são meus ancestrais, isso é que tenho como indígena.
O Brasil precisa devolver nossa dignidade e direitos, o que não foi feito durante as transições politicas, Colônia, império e República em relação a população índigena.
“Se as pessoas não tiverem vínculos profundos com sua memória ancestral, com as refêrencias que dão sustentação a uma identidade, vão ficar loucas neste mundo maluco que compartilhamos.” Ailton Krenak.




