Na noite de segunda-feira (16), a Beija-Flor de Nilópolis apresentou na Marquês de Sapucaí o enredo “Bembé”. A escola de samba foi a segunda a desfilar no segundo dia das apresentações do Grupo Especial do Carnaval 2026 do Rio de Janeiro e levou para a avenida a história do Bembé do Mercado, cerimônia realizada em Santo Amaro da Purificação, na Bahia, considerada o maior Candomblé de rua do mundo.
Criado em 1889, um ano após a abolição formal da escravatura, o Bembé do Mercado reúne mais de 60 terreiros de matriz africana para rememorar a luta pela liberdade do povo negro no Recôncavo Baiano.
O Bembé do Mercado tem origem no primeiro aniversário da abolição da escravização no Brasil. Em 13 de maio de 1889, mesmo diante das dificuldades vividas pela população negra recém-liberta, pescadores e o povo de santo se reuniram para realizar, na rua, um Candomblé público que durou três dias.
Segundo a história oral contada pelos moradores de Santo Amaro, um africano de origem Malê conhecido por João Obá saiu às ruas juntamente com seus filhos de santo para comemorar a Abolição. Na ocasião, foi armado no Largo do Xaréu um grande caramanchão coberto com palha. Por três dias, um grande candomblé tomou o espaço público e culminou com a entrega de um presente à mãe d’água.
A celebração afirmava a liberdade, agradecia e renovava forças. Desde então, se manteve viva, passada de geração em geração.
O que significa “Bembé do Mercado”
O termo “bembé” é uma referência ao Candomblé. A expressão “do Mercado” remete ao local onde ocorre a celebração, o Largo do Mercado Municipal de Santo Amaro. Conhecido como um “Candomblé de rua” (expressão usada pelos próprios praticantes), o evento começa nos terreiros, passa pelo Largo do Mercado, onde acontece o Xirê (ritual coletivo com cânticos e toques para os orixás), e segue até a praia, onde são entregues os presentes a Iemanjá e Oxum.
As decisões sobre o rito partem da consulta aos orixás, por meio do jogo de búzios, dos sonhos e de sinais interpretados coletivamente. A música ocupa papel central, com o uso dos três tambores sagrados do candomblé, do agogô e de cânticos entoados por ogãs, sacerdotes e sacerdotisas, que dominam os fundamentos e os tempos próprios de cada canto.
Além dos rituais religiosos, o Bembé do Mercado reúne manifestações culturais de matriz africana como samba de roda, capoeira, maculelê, puxada de rede, negro fugido, burrinha e lindro amor. O evento também abre espaço para falas públicas e reflexões sobre direitos da população negra e suas lutas históricas.

Perseguições e retomada
Na década de 1950, por perseguições às religiões afro-brasileiras, o Bembé por alguns anos não pôde ser realizado no Largo do Mercado ou em qualquer local público. A celebração da Abolição passou a ocorrer dentro do Terreiro 13 de Maio, sob comando de Pai Tidu, enquanto os pescadores continuavam a entregar presentes à Mãe D’água.
Em 1958, as festividades retornaram para o Largo do Mercado, ainda sob comando de Pai Tidu, que incluiu preceitos e rituais na comemoração, proibiu bebidas alcoólicas e tornou o evento mais ordenado, atraindo pessoas das cidades vizinhas.
Em 1966, a Prefeitura passou a contribuir financeiramente para o evento. Entre 1996 e 2005, muitas trocas de pais e mães de santo ocorreram no comando da festa. Em 2006, Pai Pote assumiu a liderança e atualizou politicamente o evento, desde as negociações com a prefeitura até a escolha das homenagens.
Em 2019, o Bembé do Mercado foi registrado como Patrimônio Cultural do Brasil no Livro das Celebrações, conforme o Decreto nº 3.551/2000. O reconhecimento foi concedido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), garantindo ações de valorização, salvaguarda e visibilidade da manifestação.
No parecer que embasou o registro, Márcia Sant’Anna, conselheira na ocasião, definiu o Bembé como documento histórico da trajetória do povo negro, de sua resistência à escravidão e da construção de sentidos próprios de poder e liberdade.
Por Alma Preta




