Aos 16 anos, Ana Maria Araújo Santos foi iniciada no Candomblé. Aos 9, já caminhava pela Casa de Oxumarê, em Salvador, sem imaginar que ali começava uma jornada que a tornaria uma das grandes referências vivas do culto a Orixá no Brasil. Conhecida como Mãe Ana de Ogum, ela atravessou mais de seis décadas sustentando a fé, transmitindo sabedoria e mantendo viva a tradição com firmeza, amor e altivez.
Filha de santo de Mãe Simplícia de Ogum, do barco das quatro, Mãe Ana construiu um legado espiritual e comunitário que se impôs pela prática, e não pelo título. Seu terreiro, o Ilê Axé Oju Onirê, em Taboão da Serra (SP), tornou-se ponto de referência para quem buscava orientação, acolhimento e axé. Formou filhos, netos e gerações. Cuidou de pessoas do Brasil inteiro e também da Europa. Era reconhecida tanto dentro quanto fora do universo religioso: recebeu a Medalha Anchieta e o título de Cidadã Paulistana, entre outras honrarias.
Não era apenas uma líder de terreiro, era uma guardadora de saberes e defensora incansável das tradições afro-brasileiras. Por sua atuação, a Assembleia Legislativa de São Paulo passou a valorizar oficialmente o Dia de Ogum, em gesto que reconhece a importância do Orixá e da religiosidade de matriz africana no estado mais populoso do país.
Suas palavras orientavam, sua postura ensinava, e sua fé sustentava não apenas os rituais, mas os próprios caminhos daqueles que a cercavam.
Mãe Ana partiu para o Orum no dia 8 de janeiro de 2026. O coração da tradição perdeu um de seus pulsos mais firmes, mas a herança que ela deixa ecoa em cada canto, em cada cântico, em cada corpo iniciado, em cada terreiro que segue resistindo e florescendo.
Ogum a recebe com honra. Nós, com saudade, reverência e gratidão.




