As pessoas com mais de 50 anos das classes C e D são majoritariamente mulheres. Elas representam 54,6% desse público, com 59% na classe D. Setenta por cento se autodeclaram negras.
“A mulher negra periférica emerge como o centro invisível da longevidade brasileira, resultado da sobreposição entre gênero, raça e desigualdade social”, afirma o estudo. “Sustentam lares, cuidam de gerações e mantêm redes em funcionamento, mas envelhecem com menos renda, menos saúde e menos proteção.”
Vivem em domicílios multigeracionais, com média de quatro pessoas por casa. Quarenta e três por cento ajudam financeiramente filhos e netos. Trinta e um por cento têm fé evangélica, elemento que, segundo o estudo, organiza valores e o cotidiano.
“A mulher aqui não para. Mesmo velha, continua cuidando de todo mundo”, disse uma mulher de 64 anos, da classe D, em pesquisa do data8. “A gente segura a família, mesmo quando o corpo já não acompanha”, completou outra, de 59 anos, da classe C.
Saúde reativa e solidão
A saúde na periferia é caracterizada pela ausência de prevenção. Quarenta e dois por cento das pessoas com mais de 50 anos das classes C e D nunca tiveram plano de saúde. Sessenta e um por cento utilizam a Unidade Básica de Saúde (UBS) como principal porta de entrada.
“Só vou ao médico quando não dá mais”, afirmou uma mulher de 63 anos, da classe D. “Plano de saúde é coisa de rico. A gente vai ao posto”, declarou um homem de 66 anos, da classe C. “Não penso em saúde porque não tenho condição de ir ao médico”, disse uma mulher de 59 anos, da classe E.
A solidão periférica não decorre da falta de pessoas, mas da ausência de cuidado recíproco. Setenta e meio por cento das pessoas das classes C e D têm netos e mais filhos que as classes A e B. Dezoito por cento dos idosos vivem sozinhos, índice que sobe para 24% na classe D. Trinta e oito por cento se sentem muito sozinhos, com 47,6% na classe D.
O principal problema relatado é “ter muito trabalho e muitas preocupações”, citado por 15% na classe D, contra 6% nas classes A e B.
Quatro tempos desalinhados
O estudo propõe uma leitura da longevidade a partir de quatro dimensões temporais. O tempo de vida aumenta nas periferias, mas o tempo saudável não acompanha esse ritmo. O tempo de trabalho se prolonga, enquanto o tempo de autonomia financeira se encurta.
“A gente vive mais, mas vive cansado. Não é viver bem, é aguentar”, afirmou um homem de 61 anos, da classe C. “A gente vai levando porque parar não dá”, acrescentou uma mulher de 59 anos, da classe E.
O estudo conclui que a velhice periférica revela com mais intensidade os descompassos da longevidade no Brasil. Vive-se mais, com menos saúde, menos renda e mais trabalho. “A pessoa é tratada como velha quando não tem posse, status”, afirmou um homem de 69 anos, da classe E. “A gente vive mais, mas vive no limite”, resumiu uma mulher de 65 anos, da classe D.
Por Alma Preta