Tudo na infância tem uma dimensão maior e os traumas que agressões físicas ou psicológicas podem ocasionar muitas vezes é irreparável.
O racismo infelizmente se apresenta ainda na infância, essa discriminação é uma das formas mais brutais de violência, ainda mais sendo contra uma criança. Uma crueldade sem limites que a sociedade precisa dar um basta.
Nem mesmo uma criança de 4 anos de idade está livre de sofrer ataques racistas. Maria Eduarda (Duda) nasceu em Sabará, na região Metropolitana de Belo Horizonte, onde vive atualmente com os pais e o irmão de dois anos. Ela venceu o concurso “Miss Minas Gerais Kids” no início deste ano, e está se preparando para o “Miss Brasil Kids”, que ocorrerá em outubro. Após ganhar o concurso, Duda foi alvo de comentários racistas nas redes sociais.
A família de Maria Eduarda fez uma postagem celebrando a conquista, muitos parabenizaram, mas também houve quem criticasse o cabelo da criança, que apenas pediu mais representatividade entre as princesas de desenho animado.

Em sua inocência, Duda sequer entende o motivo de receber esse tipo de agressão. No seu perfil um dos comentários que foi exposto, diz: “Isso não é cabelo de princesa, vamos ser sinceros. Tá mais pra bruxa”. Outro comentário dizia: “Cabelo feio, tem rosto bonito”.
A mãe da miss, Adriana, informou para o Àwúre que preferiu não denunciar o caso com medo de expor a filha.
“A gente decidiu não prestar queixa, desta vez, para não expor ela mais, pois não sabemos o que essa pessoa é capaz de fazer, então não quisemos expor ela nesse momento”, disse.
“Quando eu vi o comentário, a minha primeira reação foi de medo, foi um sentimento muito forte, eu gelei, me deu um pavor que me deixou paralisada. A sensação foi de impotência, de não poder proteger ela desse tipo de ataque”, lamentou a mãe.
Sabemos que, em muitas famílias, falar sobre racismo não é uma prática comum. Muitos adultos vieram de estruturas familiares nas quais esse assunto não costumava ser abordado. Mas trazer essa discussão à tona e aproximar do cotidiano das crianças, contribui para que elas fiquem mais atentas à questão racial e saibam se defender de ataques.
Adriana comenta que tem trabalhado a questão racial com Duda, e lamenta o sentimento de quem proferiu o ataque na foto.
“Temos trabalhado muito em fortalecer e preparar ela para esse tipo de preconceito. Ficamos revoltados e tristes, pois é uma foto de uma criança sorrindo, falando que tem um sonho de ser princesa. E saber que ela despertou esse sentimento em um ser humano, é doentio”.
Infelizmente casos de pessoas que sofrem racismo, como o da Duda é comum. Inacreditavelmente, esse ato de violência e ignorância ainda permanece sendo um retrato do Brasil.
Segundo o relatório inédito sobre “Percepções e sentidos: racismo, sexismo e intolerância religiosa na infância e juventude em Salvador e no Recôncavo Baiano”, onde as pessoas entrevistadas tinham que assinalar as opções que concordassem ou que melhor representasse o que elas entendem sobre RACISMO, 70% acreditam que no Brasil, o racismo é estrutural, institucional e individual.
Os dados quantitativos do relatório apresentam que:
- 47,8% compreendem que em nosso país, o racismo é resultado do processo de colonização e da escravidão;
- 16,8% responderam que o racismo existe, mas não acham correto dizer que “a sociedade é racista” porque racismo é uma ação individual, quer dizer, é a pessoa quem pratica ações racistas;
- 70,9% compreendem que, no Brasil, o racismo é estrutural, institucional e individual. Justamente por isso está tão entranhado na nossa cultura e na forma como nos relacionamos.
A coordenadora da pesquisa, Jalusa Silva de Arruda, explica o relatório e seu impacto nos comportamentos da sociedade.

“É importante destacar que essa pesquisa é inédita, não encontramos outra pesquisa como essa fazendo uma revisão da literatura. No sentido de discutir a percepção de racismo, sexismo e intolerância religiosa de uma maneira interseccionada, com foco na infância e na juventude, aqui em Salvador em nove municípios do recôncavo baiano, disse Jalusa. ‘Só pelo caráter de ineditismo, já tem uma contribuição relevante’, afirma.
Esse levantamento de dados também abre caminhos para que outras pesquisas sejam feitas usando o relatório como fundamento.
“Se observa ganchos para que novas pesquisas sejam feitas, para um aprofundamento sobre o tema. Então esse é um impacto socialmente importante, que é desenvolver uma pesquisa com um caráter original e até o momento, exclusivo”.
O relatório aprofunda as questões relacionadas à problemática do racismo, sexismo e da intolerância religiosa na juventude, entendendo a intolerância religiosa como racismo religioso.
“Foi essa perspectiva trabalhada no texto e a principal contribuição que a gente quer que a pesquisa tenha. Que essa pesquisa seja conhecida pelos atores do sistema de garantia de direito, pela rede de atendimento de crianças e adolescentes, e que, os resultados desse trabalho possam refletir sua prática, refletir sobre como devem ser construído seus protocolos e fluxos de atendimento e o seu olhar sobre as violências contra crianças e adolescentes para poder qualificar essa atuação. Uma atuação não apenas de assistentes sociais, psicólogos em CRAS, professores, mas também, delegados e policiais de delegacias especializadas, juízes de direito, membros do Ministério Público e da Defensoria Pública, profissionais da saúde, para entender o quanto que, sexismo, racismo e as expressões da intolerância religiosa, impactam no desenvolvimento saudável nas violações de direitos humanos de meninos e meninas”.
A diretora técnica do Instituto Aliança com o Adolescente e Coordenadora Geral da área de Direitos Humanos, Ilma Oliveira, fala o que tem sido feito dentro do Instituto Aliança para combater o racismo e outras práticas preconceituosas.

“Antes de tudo, gosto muito de lembrar que o Instituto Aliança é uma instituição filha do seu tempo. E é nesse tempo, revelador, atual, que nos debruçamos para revisitar nossas crenças e reconstruir, sempre que necessário, a nossa convivência com diferentes e diversas formas de existir no mundo. Além disso, somos, também, uma instituição formadora, o que significa que acreditamos na educação como fonte de transformação e de constante aprendizagem, o que inclui, por exemplo, avançarmos de forma crescente na garantia de ações antirracistas. Temas como racismo estrutural e educação decolonial, por exemplo, estão presentes em muitos dos nossos estudos, pesquisas e itinerários formativos dos projetos que acompanhamos. Para além disso, reconhecemos a importância de assegurar a representatividade de pessoas negras no protagonismo dessas narrativas, em nossas equipes. Estamos caminhando, entendendo que o nosso inevitável diálogo com a realidade nos provoca a avançar em nossa responsabilidade histórica, sempre”.
O Àwúre, iniciativa do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), Ministério Público do Trabalho (MPT) e Organização Internacional do Trabalho (OIT) – conta com o apoio do Instituto Aliança e Plan International na região do Recôncavo Baiano. Entre as pautas principais da iniciativa, está o enfrentamento dos impactos do racismo, sexismo e das intolerâncias religiosas, a garantia de diversidade e inclusão, a superação da evasão escolar e a prevenção ao homicídio de jovens. As estratégias do projeto estão pautadas no diálogo atento com as comunidades, visto que sistemas locais e redes comunitárias de proteção fortalecidas reduzem as chances de uma criança, adolescente ou jovem ser vítima da exploração, da violência, do abuso e da discriminação.




