Esse texto tem o intuito de honrar e celebrar os poderes pequenos e encantáveis que são GRANDES, e também aquelas histórias que parecem pequenas e desimportantes, mas que são VALOROSAS. As heroínas negras brasileiras são referências intelectuais e de resistência das quais devemos nos orgulhar e nos espelhar. Contudo foram invisibilidades pela historiografia brasileira.
Devemos observar o que diz respeito ao esquecimento e silenciamento produzido pelo Estado relativo ao passado histórico de determinados grupos vulneráveis. É importante frisar que, se a memória social é um essencial campo de pesquisas acadêmicas, ela é também um campo político, cognitivo, identitário e performativo para lembrarmos nossos passados heroicos ou vergonhosos. Dito isso, a memória social é um campo transversal e polissêmico, que pode nos questionar sobre importantes informações para o campo racial e político no mundo contemporâneo e nacional.
São grandes histórias silenciadas pelo racismo e pelo patriarcado que marcam a formação social brasileira, mas são também histórias de luta do nosso povo que surpreendem por ter tanta beleza envolvida. Heroínas como Dandara Palmares, Zacimba Gaba, Tereza de Benguela, Tia Ciata, Esperança Garcia, entre muitas outras.
Tantas histórias lindas que precisam ser conhecidas, pois fazem parte do Brasil e dão orgulho para o povo preto, um povo que apesar da miséria, do racismo e de toda forma de intolerância e preconceito que existe em nosso país, resiste, luta, sonha, e se movimenta. Essas mulheres vêm desde muito tempo construindo outras formas de ser e estar no mundo, tecendo outras narrativas para si e para o nosso povo. Veja o que mulheres negras falam a respeito desse apagamento e a seguir conheça as heroínas negras, da história não contada no Brasil.
Graduada em história, Leidiane Araújo comenta por que é importante que as escolas resgatem essas biografias.

“No cenário escolar, percebe-se que há um racismo enraizado, pois a abordagem narrativa das mulheres negras se tornou um dilema onde se perpetua principalmente nas buscas pelas fontes as quais os educadores não terão o devido suporte, e outra, que essas mulheres passaram por esquecimento histórico apesar das grandiosas histórias. O resgate dessa temática no ensino é de suma importância, para que possamos ter outro olhar para essas heroínas que de certa forma tiveram uma trajetória diferenciada dos homens brancos e dos homens negros também, e esses homens brancos de certa forma ocuparam todo espaço ainda como protagonistas. Acredito que aprender sobre a história dessas mulheres fortes, corajosas e guerreiras que lutavam por direitos mostra o quanto elas ajudaram na construção de uma sociedade mais democrática. Eu, como mulher negra, graduada em história, estudante de escola pública onde obtive a aquisição de conhecimento, nunca estudei nada referente a esse contexto. Provavelmente, um grande passo para esse erro não acontecer e que as novas gerações aprendam sobre as heroínas negras, é reformular o currículo escolar e que essas biografias sejam inseridas, de certa forma tendo uma representatividade das mulheres negras como um símbolo de luta e também das expressões que elas repassavam, sendo seus valores, medos, inspirações contidas em suas histórias”.
Escritora e Coordenadora Pedagógica na Secretaria da Educação de São Paulo, Mari Vieira fala como as escolas podem se apropriar desse material e fazer um resgate as biografias de heroínas negras, fazendo com que não sejam esquecidas e que suas vozes ecoem.

“Primeiramente formando educadores antirracistas, antifascistas e anti-machistas. É importante a existência de leis, mas também é necessária a formação contínua e séria para professores e professoras. A formação de profissionais da educação como um todo (insisto no todo para incluir quem trabalha na escola e não é professor(a), como por exemplo, os agentes escolares que também desempenham papel importante na formação das crianças e adolescentes) deve ser absolutamente e irrestritamente comprometida com as mudanças necessárias. É urgente haver condições de trabalho e de atualização adequadas. Falando especialmente do corpo docente, é importantíssimo uma formação comprometida com a aplicação desses saberes, que exista meios de cobrar uma prática antirracista, antifascista e anti-machista em sala de aula, caso isso não aconteça se corre o risco de parte desse material virar peso morto nas bibliotecas. Simultaneamente a essas ações, disponibilizar biografias para professores, professoras e estudantes significa ações urgentes e muita esperança de uma sociedade mais justa e menos excludente. A parte todas as dificuldades encontradas, especialmente nas escolas públicas, as salas de aulas ainda resistem como espaços de luz e docentes comprometidos(as) são o caminho mais curto para o mundo que sonhamos”.
O Àwúrê, uma iniciativa do Ministério Público do Trabalho (MPT), Organização Internacional do Trabalh (OIT) e do Fundo das Nações Unidas para a Infância(UNICEF), ressalta também o compromisso de garantir ao povo negro a liberdade para se amarem, buscarem sua própria identidade, expandirem sua cultura, sendo tratados com todo respeito em todos os 4 cantos do país. Que por onde estejam, as mulheres pretas sejam tratadas com respeito máximo, sejam ouvidas e tenham estruturalmente as condições que garantam a equidade social!
Conheça a história de cinco heroínas negras:
DANDARA PALMARES

Para falar de Dandara, temos que iniciar falando sobre o quilombo. Maria Beatriz Nascimento nos conta que: “O quilombo é um avanço. É produzir ou reproduzir um momento de paz. Quilombo é um guerreiro quando precisa ser guerreiro e também é um recuo, se a luta não é necessária. É uma sapiência, uma sabedoria. A continuidade da vida, o ato de criar um momento feliz, mesmo quando o inimigo é poderoso, e mesmo quando ele quer matar você. A resistência. Uma possibilidade nos dias da destruição”.
É na Serra da Barriga, antiga Capitania de Pernambuco, que surgem os Quilombos de Palmares. Angola Janga, conhecida popularmente como Palmares, era o resultado de uma junção de diversos Mucambos, incluindo de Macaco e de Palmares, entre outros.
A Invasão Holandesa desestruturou a sociedade colonial portuguesa, enfraquecendo a economia através da destruição dos engenhos, com a queda de alguns deles, muitos homens e mulheres escravizados conseguiram “se libertar”, e encontrar refúgio em Palmares. Isso fez com que a população palmense aumentasse, chegando a, aproximadamente, 20 mil pessoas, sendo somente Macaco, a Capital do Quilombo, responsável por abrigar 6 mil habitantes.
Palmares é conhecido até hoje como sinônimo de resistência, conta em sua história com líderes como Ganga Zumba e Zumbi, que lideraram a resistiram por quase um século contra os horrores da Coroa Portuguesa. Mas o que a história não conta é que houve também uma grande líder, mulher e pessoa, não apenas esposa de Zumbi, nessa resistência.
Dandara dos Palmares, uma heroína negra da história não contada do Brasil. Não se sabe se Dandara nasceu no Brasil ou no continente africano, mas teria se juntado, ainda criança, ao Quilombo dos Palmares onde se firmou na luta contra o sistema colonial escravista. Dandara se dedicou às artes da guerra, tornou-se uma figura de grande importância na defesa do quilombo e liderou homens e mulheres em vários conflitos contra as forças enviadas pelas autoridades coloniais. E não só lutava e liderava como também tinha habilidades na colheita e na caça. Ao lado do seu marido Zumbi, líder dos Quilombos, formou família e se tornou uma figura de grande importância da resistência negra, Dandara transformou-se em ícone da liberdade e do combate à escravização, sempre perseguiu o ideal da liberdade.
Infelizmente, mesmo que haja diversas imagens na internet, não temos certeza de como era o seu rosto e outras características físicas, devido ao apagamento epistêmico. Vendo o avanço da luta e resistência estabelecida em Palmares, a coroa Portuguesa ofereceu um “acordo de paz”, que dava liberdade só para alguns escravizados que lá estavam aquilombados. Geralmente comparada com Obá e Iansã, duas das principais deusas do panteão africano, como uma leoa defensora da liberdade, Dandara se opôs, pois queria liberdade de todo o povo do Quilombo e continuou sua batalha.
Reconhecida por sua força e resistência, segue sendo um exemplo para muitas mulheres negras na sociedade brasileira. Mesmo que o saber científico ocidental veja sua história como lenda, como um mito, não há como negar que existiram inúmeras Dandaras.
Dandara Palmares é uma heroína negra que lutou bravamente pela liberdade do seu povo até se tornar semente, pois se negou a retornar para as correntes que lhe aprisionava, escolheu germinar e se multiplicar em cada uma de nós que segue na luta ainda hoje. É de grande importância a recuperação da memória de Dandara Palmares e de sua luta, pois é ela uma das grandes heroínas da história não contada do Brasil.
TEREZA DE BENGUELA

Assim como a história de Dandara dos Palmares, iniciamos a história de Tereza de Benguela falando sobre o quilombo. As Comunidades Quilombolas têm uma forte interação com a terra, ela é vista como a mãe que alimenta e gera possibilidade de vida. As pessoas que ali se abrigam costumam se organizar em grupos, de forma que haja solidariedade social e o trabalho realizado seja coletivo.
O escritor e Líder quilombola Antônio Bispo dos Santos afirma que os quilombos são perseguidos exatamente porque oferecem uma possibilidade de viver diferente. Segundo Nego Bispo, como é mais conhecido, hoje em dia, ainda é possível encontrar muitas comunidades praticando relações de vida, estruturalmente semelhantes às praticadas por Palmares, Canudos e Pau de Colher.
O Quilombo do Quariterê foi um quilombo localizado no território que hoje corresponde ao Vale do Guaporé, atual fronteira entre Mato Grosso e Bolívia, que abrigava mais de 100 pessoas, com destacada presença de negros e indígenas. O quilombo inicialmente chefiado por José Piolho foi o maior de toda a região do Mato Grosso. Ali, vivia do cultivo de alimentos como algodão, milho, feijão, mandioca, banana e também da venda dos excedentes da produção quilombola por ouro e pedras preciosas, eventualmente revertido em mais armas. Por ser um território de difícil acesso, o Quilombo do Quariterê foi o ambiente ideal para a Rainha Tereza de Benguela coordenar um forte aparato de defesa, e articular um parlamento, para decidir em grupo as ações da comunidade. Tereza, assim como outras heroínas negras, foi uma personagem importante na luta contra a escravização e nas conquistas sociais do Brasil.
Teresa de Benguela viveu no século XVIII e foi casada com José Piolho. Sua origem é desconhecida, não se sabe ao certo se a rainha tem nacionalidade brasileira ou se trata de uma africana de Angola. Não há sequer uma data aproximada de seu nascimento. Apesar das diversas imagens de Teresa que estão disponíveis na internet, não sabemos ao certo como era seu rosto e demais características físicas, devido ao racismo epistemológico, que tende a apagar a história da população Negra.
O que se tem certeza é que sua vida fez parte da história pouco contada do Brasil. Com a morte do seu marido, Piolho, Benguela passou a chefiar o quilombo. Sua liderança se destacou com a criação de uma espécie de Parlamento e de um sistema de defesa. Diante de tanta luta e resistência, Tereza de Benguela se consolidou enquanto liderança e era respeitada e reconhecida por todos naquele local. Ela navegava imponente pelos rios do Pantanal, e todos a chamavam de “Rainha Tereza”.
O quilombo resistiu da década de 1730 ao final do século e a liderança de Tereza de Benguela vigorou até 1770, quando então veio à óbito. Devido à precariedade de informações, não se sabe ao certo o que teria motivado sua morte.
Tereza de Benguela é uma heroína negra que lutou incansavelmente pelo seu povo e deixou um enorme legado para cada um de nós. A força e estratégia de Benguela não foi esquecida, apesar dos poucos registros de sua luta, a líder se tornou um sinônimo de força e coragem. Se tornou um símbolo para a mulher negra, reforçando orgulho da sua raça e trajetória.
A importância de lembrar seus passos foi sentida e repercutida séculos depois, especificamente na década de 1990, quando dia 25 de julho se tornou um marco internacional de luta e resistência de mulheres negras latino-americanas e caribenhas. É de extrema relevância a recuperação do legado de Tereza de Benguela, uma heroína negra que lutou bravamente pela liberdade do seu povo, combatendo o sistema colonial de escravização. Assim, fica aqui registrada neste resumo a história desta grande personagem da história brasileira que deve ser lembrada nas salas de aula do Brasil.
MÃE STELLA DE OXÓSSI

Para falar sobre mãe Stella, é importante começar falando sobre religiões de matriz africana. Compreendemos que povos de terreiros e comunidades tradicionais de matriz africana são potentes iniciativas de luta, de memória social, de cultura, de reinvenção.
Segundo a historiografia oficial, os primeiros terreiros surgiram na Bahia. Foi através da necessidade de lutar contra a escravização e resgatar as tradições por meio do culto aos orixás, que surgiram na Bahia as primeiras imagens de renomadas casas de axé. O terreiro que abriga boa parte da história de mãe Stella se chama Ilê Axé Opô Afonjá. Foi fundado em 1910, por dissidentes do terreiro da Casa Branca do Engenho Velho, o mais antigo da Bahia, em uma roça adquirida no bairro de São Gonçalo do Retiro.Mãe Stella foi a quinta Iyalorixá dessa casa.
Em Salvador, dia 02 de Maio de 1926, nascia Maria Stella de Azevedo Santos, a quarta filha de Tomazia de Azevedo Santos e Esmeraldo Antigo dos Santos. Órfã aos sete anos de idade foi criada pelos tios, que embora praticassem o catolicismo, mantiveram as tradições do Candomblé.
No entanto, por volta dos treze anos de idade, Maria Stella apresentou um comportamento não esperado, o que fez com que sua tia, Dona Arcanja, levasse-a ao Pai Cosme de Oxum, tendo este a profetizado como uma perfeita Iyalorixá e por isso logo deveria ser iniciada.
Em 12 de setembro de 1939, aos quatorze anos, Mãe Stella foi iniciada por Mãe Senhora e recebeu o orukó de Odé Kayodê. Mãe Stella conta que quando foi realizada sua iniciação, ela “não pensava em nada”, “não tinha noção” do que estava acontecendo, e dizia: “é interessante o desígnio, a força dos orixás. Meu caminho era ser iyalorixá. Se tivesse ficado no Gantois, não poderia realizar meu caminho.
Mãe Stella conta que Mãe Aninha ainda era viva quando visitou o Opô Afonjá pela primeira vez e, antes que ela fosse embora, a Ossi Dagã (cargo de grande respeito no axé) tirou uma maçã da grande gamela que estava no altar de Xangô e lhe deu como um “gesto mágico”, onde Xangô presenteava aquela que um dia ocuparia a cadeira de chefe de seu Axé.
Ao longo da vida, Mãe Stella percorreu caminhos literários, de luta e resistência, contribuindo com um importante legado coletivo do povo preto no Brasil. Além disso, Mãe Stella formou-se pela Escola de Enfermagem e Saúde Pública, foi também Doutora Honoris Causa da Universidade Federal da Bahia, ocupando a cadeira nº 33 da Academia Brasileira de Letras da Bahia.
Em sua excepcionalidade e dedicação com a leitura e com livros, escreveu em torno de dez livros. Além disso, é uma das mais importantes figuras na luta pela emancipação das religiões de matriz africana, pois em 1983, se pôs notoriamente contra o sincretismo, desvinculando de vez o Candomblé da Igreja Católica e afirmando-o como religião.
Sempre atenta à preservação da memória histórica, criou o museu Ilê Ohun Lailai, fundou uma creche para que mulheres pudessem trabalhar, e que posteriormente, se tornou a Escola Municipal Eugênia Anna dos Santos (nome civil de Mãe Aninha, a quem Mãe Stella substituiu no Afonjá), escola essa, que era desejo da própria Mãe Aninha.
Inserir negros e pobres na educação, fez parte do legado dessa ialorixá, que respeitava a oralidade dos ensinamentos africanos, mas acreditava que a escrita perpetuava a memória.
A mulher emblemática e forte, Mãe Stella de Oxossi, nos deixou aos 93 anos, permitiu-nos conhecer a sua grande face transformadora, pois foi através de todo seu movimento de luta ao longo de sua existência, que nos proporcionou conhecer as encruzilhadas. Trabalhou incansavelmente, para transformar a visão que se tem da população negra no Brasil, abrindo portas para aqueles que estão por vir, honrando àqueles que por aqui passaram, em uma sociedade cujo ponto de partida é o racismo.
ESPERANÇA GARCIA

Foi por uma carta, para uma reivindicação, um documento por justiça. Assim que conhecemos, tardiamente, Esperança Garcia. O ato de escrever, não era permitido a nenhuma mulher, menos ainda a uma mulher preta e escravizada. Ela reivindica, contesta, traz testemunhas e provas. Vamos apresentar o significado da esperança de Esperança Garcia na luta por direitos e justiça para a população negra do Brasil.
No século XVIII (18) o Estado do Piauí pertencia à Capitania do Maranhão. A região que hoje fica localizada no município de Nazaré, abrigava a fazenda de Algodões, onde ocorreu grande parte da história que iremos contar hoje. Os escravizados da fazenda tinham expectativa de uma vida entre 30 a 35 anos de idade, e morriam em decorrência da particularidade do trabalho desumano ao qual eram submetidos.
Esperança Garcia foi uma mulher negra da história não contada do Brasil, cheia de coragem e ousadia. A heroína desse vídeo nos apresenta uma série de estratégias do povo preto durante o período escravocrata. Cativa da Fazenda de Algodões, Esperança construiu sua família. Contudo, foi retirada de Algodões pelo representante do Estado, Capitão Antônio Vieira do Couto, levando-a com apenas uma de suas crianças para trabalhar como cozinheira em sua residência, na fazenda em Nazaré do Piauí. Isso não significou uma aceitação por parte dela, pois sempre fugia até Algodões para encontrar seu marido e demais filhos. Mesmo escravizada, Esperança usou sua capacidade estratégica para aprender a ler e escrever a língua do colonizador em tempos proibidos. Reelaborando os dogmas da Igreja Católica ao seu próprio favor, ela fez uso corajoso desse aprendizado para denunciar as violências da escravização, os maus-tratos executados pelo Capitão Vieira do Couto e sofridos por ela, seu filho e companheiras da nova Fazenda, onde estavam sob posse do Estado. Então, nossa heroína escreveu uma carta endereçada ao governador do Piauí, reivindicando que o Estado cristão reconhecesse a legitimidade de sua demanda e cessassem com as agressões que sofria. Depois do envio dessa carta-denúncia, Esperança fugiu e se refugiou na mata, com proteção de parceiros, perto de Algodões. Sem possuir notícias, depois de oito anos, ela foi encontrada, trabalhando novamente em Algodões, com seu marido e sete filhos. Não se sabe ao certo se a carta chegou de fato ao governador da província, mas aqui importa destacar que o ato de Esperança, contribuiu pioneiramente para derrubar um conjunto de teorias, que falam sobre a passividade do povo escravizado. A luta de Esperança Garcia não gerou frutos apenas para o seu tempo, mas desencadeou uma série de fatos que marcaram a história do Piauí e do Brasil.
Sua história nos foi revelada recentemente, quando em 1979, uma cópia de sua carta foi descoberta pelos pesquisadores Luiz Mott e Solimar Oliveira de Lima. O manuscrito original se encontra em Cativo, no Portugal, evidenciando assim, o sequestro da história que se perpetua até hoje. A carta de Esperança Garcia é considerada a primeira petição do Piauí, sua ousadia foi reconhecida pela OAB do Piauí, através do trabalho da Comissão da Verdade da Escravidão Negra do Brasil, presidida pela advogada negra, Maria Sueli Rodrigues, Esperança recebe o título de advogada, sendo assim a primeira do Estado. Além disso, Esperança constrói um legado sociocultural, onde ainda hoje sua história é compartilhada entre os moradores da região. Hoje é possível visitar o Memorial Esperança Garcia, localizado em Teresina-PI. Esperança exemplo para jovens negras, negros e negres que são inspirados a não aceitarem o local subalternizado imposto pelo colonizador. Hoje, ainda lutamos nos espaços elitizados, nos impondo e reivindicando o que fora roubado. Seja nas universidades, onde ainda prevalece o eurocentrismo, nos espaços públicos e nas instituições jurídicas, mulheres negras batalham contra o racismo e o epistemicídio, buscando reescrever a história do Brasil.
TIA CIATA

Tia Ciata de Oxum é a nossa heroína negra de hoje, mas para entender a importância dela, precisamos apresentar sua conexão com a origem da cultura carioca e do samba. Com o fim da escravização temos o início de uma proletarização nos centros urbanos que acompanha o crescimento das Indústrias. Logo, houve uma enorme migração de habitantes da região nordestina, sobretudo do Estado da Bahia, que buscavam melhores condições de vida.
Os baianos e baianas mais estabilizados, que conseguiram emprego em casa no Rio, abrigavam os recém-chegados, até que esses conseguissem meios para se manter. O Rio de Janeiro criou uma cultura própria, a partir dessa mistura de tradições que foram trazidas forçadas de diversos lugares de África, passaram pela Bahia e tiveram como destino final o Rio de Janeiro. É nesse cenário que nasce a chamada “Pequena África”, território que se estende da Zona Portuária passando pelos bairros da Saúde, Estácio, Santo Cristo, Gamboa e Cidade Nova. Até a Praça Onze de Junho, que foi totalmente remodelada nos anos de 1940 para abertura da Avenida Presidente Vargas. “A pequena África” configura-se, então, como um dos principais redutos de afirmação e resistência da população negra, bem como berço da cultura popular carioca.
As tias baianas são um importante exemplo de lideranças que ocuparam a “Pequena África” após esse movimento da diáspora baiana. Estas mulheres foram o sustentáculo da comunidade negra na cidade, sendo elas de grande influência para o samba, carnaval e religiões de matriz africana. Sempre em constante diálogo com o Candomblé, as tias baianas possuíam posições centrais nos terreiros, e influenciavam nas questões espirituais e materiais dos frequentadores. Assim, consequentemente, possibilitam a continuidade dessas tradições. Eram matriarcas de famílias unidas por laços e não necessariamente por sangue.
Nascida no Recôncavo Baiano, Hilária Batista de Almeida, mais conhecida como “Tia Ciata” ou “Tia Ciata de Oxum”, foi a mais conhecida das Tias Baianas. Levando em consideração o contexto brasileiro da época, não temos condições de afirmar com precisão sua data de nascimento, mas algumas fontes apontam o ano de 1854 e outras indicam 1870 como uma aproximação válida. Ao contrário do que é dito, no início dos anos 20, não havia lei que proibisse o samba, o que havia era uma grande repressão à manifestações culturais das áreas pobres do Rio.
A própria Constituição de 1891 garantia a liberdade religiosa, mas os cultos afro-brasileiros demoraram muitos anos para serem permitidos, e só poderiam acontecer com a autorização da polícia. No entanto, Ciata tinha o aval para realizar suas reuniões e também contava com dois soldados que faziam a segurança no local, o que dava ainda maior prestígio e liberdade ao povo para festejar na casa de Tia Ciata.
O aval foi concedido após a baiana curar, a partir do seu conhecimento da ciência africana e por meio da manipulação de ervas medicinal, uma ferida que estava aberta há cinco anos do então presidente, Venceslau Brás. Com tal feito, Ciata conseguiu uma promoção para seu marido, de funcionário da Imprensa Nacional para a chefia do gabinete do chefe de polícia. Tendo sido iniciada já na Bahia, era ligada a um terreiro de candomblé mais tradicional, Tia Ciata era mãe-pequena, auxiliar direta da mãe ou pai de santo.
Após a missa cristã assistida na igreja, as festas para os orixás ocorriam em sua casa na Praça Onze, e eram finalizadas pelas rodas de samba. É lembrada por ter sido uma ótima partideira nas rodas de partido alto. E as suas festas desdobravam por dias, os convidados saíam para um trabalho e voltavam para o mesmo quintal. Local de afirmação de negros e negras, o lugar acolheu também judeus, islâmicos e ciganos.
No ambiente de Tia Ciata, começam a aparecer figuras como: Pixinguinha, João da Baiana e Donga, entre outros, que eram crianças na época e mais tarde seriam responsáveis pela criação e continuação da memória do samba e da cultura afro. A história aponta que a música “pelo telefone”, 1º samba gravado no Rio de Janeiro, tem sua composição elaborada em uma das rodas na casa de Tia Ciata.
O quintal da matriarca do samba se torna a capital do pequeno continente de africanos e baianos. Nessa casa, eram reforçados os valores dos grupos recusados pela sociedade. O exemplo do reconhecimento de tal importância, a casa de Ciata se torna um dos principais pontos no itinerário de todos os ranchos, que passavam por sua janela para prestar homenagem à baiana. Os ranchos modernizaram e organizaram-se, e como resultado geraram as escolas de samba de hoje. Hilária Batista Almeida faleceu em 1924 sem precisão de data e causa, assim como ocorreu com as referências a respeito da sua data e local de nascimento e número de filhos. Entretanto, o patrimônio que Ciata de Oxum deixou, continua vivo e sendo repassado de geração em geração.




