Nesta semana, especialistas da Organização das Nações Unidas divulgaram nota denunciando o assassinato da liderança Guarani Kaiowá Vicente Fernandes Kaiowá, durante ataque a uma retomada na Terra Indígena Iguatemipeguá (MS), e exigiram que o Estado brasileiro finalize a demarcação dos territórios e abandone a doutrina do marco temporal. 
Para o Projeto Àwúre, esse caso evidencia o que afirmamos há tempos: a crise socioambiental no Brasil não se explica apenas por licenciamento ou devastação, ela se manifestou em corpos, territórios e esquecimento histórico. Quando os povos originários são atacados enquanto exercem o direito sobre suas terras, negam‑se as raízes de outra matriz civilizatória e com isso, agrava‑se a negligência global em torno da justiça climática.
A luta dos Guarani Kaiowá não pode ser reduzida ao espaço de conflito fundiário. É uma luta que se conecta à sobrevivência dos rios, à manutenção da biodiversidade, ao cuidado ancestral que preserva a vida para além dos ciclos extrativistas. A ONU está certa ao afirmar que proteger esses povos é imperativo para frear as mudanças climáticas. Mas a filtragem desse reconhecimento em políticas concretas ainda é fraca.
O Brasil, ao ignorar a demarcação e a proteção efetiva, escolhe a continuidade da violência sobre corpos indígenas, enquanto os debates internacionais celebram a floresta como “solução climática”. Esse fosso mostra o tamanho da desconexão entre discurso global e realidade nacional e reforça o papel que o Projeto Àwúre pretende ocupar: conectar esses dois mundos, amplificar vozes silenciadas e lembrar que justiça ambiental sem justiça racial é uma falácia.
Nós do projeto Àwúre conclamamos que esta tragédia seja não apenas notícia, mas um chamado à ação. Que a sociedade civil, o Poder Judiciário, os parlamentos e o Executivo tomem posição firme e imediata. A demarcação das terras dos Guarani e Kaiowá não é um privilégio, é reparação. E sem reparação não haverá democracia.




