“O racismo vivenciado na infância para todas as pessoas negras é algo muito impactante que deixa marcas e que vai impactar todo o processo de aprendizagem cognitivo de saúde mental, de autoestima das crianças negras.” (Paula Batista)
Recentemente, os filhos dos atores Giovanna Ewbank e Bruno Gagliasso e uma família de turistas angolanos foram alvos de ataques racistas proferidos por uma mulher branca de nacionalidade portuguesa em um restaurante localizado em uma praia na Costa de Caparica, em Portugal, escancara o racismo estrutural. As crianças Titi e Bless, além da família de africanos que estava no estabelecimento, foram ofendidos por uma mulher chamada Maria Adélia Freire de Andrade, de 57 anos, que os chamou de “pretos imundos” e disse para voltarem para a África.

Longe de ser um caso isolado, o incidente ganhou repercussão internacional por atingir um casal de celebridades com influência e capacidade financeira para levar a agressão para a Justiça. O casal de atores brasileiros prestou queixa à polícia, a agressora foi detida e, posteriormente, solta.
Em entrevista, o próprio Bruno Gagliasso questionou: “Teria essa atenção toda se fôssemos pretos, eu e minha mulher? “ “ Teria essa atenção toda se fossemos pais pretos de crianças pretas? – completou Giovanna. — Hoje, eu sou uma mulher muito consciente dos meus privilégios, eu sou uma mulher que está sempre rodeada de outras mulheres pretas, aprendendo diariamente. Eu vou fazer jus ao privilégio branco e vou combater de frente. Eu quero que todo mundo saiba que nós não vamos combater o racismo de maneira leve, a gente vai passar por cima e fazer jus a esse tal privilégio branco — acrescentou. Seja em Portugal, seja no Brasil, ou em qualquer outro lugar do mundo, o fato lança luz, novamente, sobre a discriminação racial presente nas sociedade e o papel das pessoas brancas na luta antirracista. Ter atitudes antirracistas todos os dias é de extrema importância. Por isso, OUÇA: Se uma pessoa preta lhe disser que você teve uma fala/atitude racista, não tente se justificar ou inverter o jogo. Apenas se desculpe e proponha uma mudança. RECONHEÇA E UTILIZE SEU PRIVILÉGIO: Não feche os olhos para atitudes racistas. É de extrema importância reconhecer e utilizar o privilégio branco de forma a prestar segurança e reverter pensamentos e falas racistas estruturais. Pessoas brancas ouvem pessoas brancas.
Especialista em estudos sobre Identidades Étnicas e Afro-brasileiras, o escritor e professor Túlio Henrique Pereira afirma que famílias inter-raciais podem desde a infância trabalhar no desenvolvimento das crianças para enfrentar o racismo e as falas discriminatórias.

“O letramento racial, ele precisa ser trazido e para isso nós precisamos nos cercar de alguns elementos lúdicos que insira personagens negras, narrativas africanas decoloniais, modos de dizer, de falar, que inclua a beleza estética, caráter moral nesse universo lúdico que os pais vão construir com seus filhos. Isso também vai fazer com que, não necessariamente, eles protejam seus filhos para a sociedade, mas que eles construam relações que fortalecem esses filhos. Então é importante estar presente em universos múltiplos, que concentrem diversidades raciais’, disse ele.
“Não dá, por exemplo, para você ter uma relação entre a inter-racial, pensando em ter um filho, e viver apenas dentro de uma bolha branca-cêntrica, é preciso furar essa bolha e também ter amizades com pessoas negras, mas não qualquer pessoa negra, mas sim pessoas negras conscientes do seu lugar racial, do seu condicionamento racial, porque a representação esvaziada de sentido, ela também não move, ela também não provoca mudanças. É importante que haja várias atitudes daquela pessoa que pretende estabelecer uma relação inter-racial para que ela consiga não só educar-se, mas educar as pessoas à sua volta e principalmente a sua prole, os seus filhos”.
A jornalista, artista e produtora cultural, Luciana Ribeiro é mãe do Yuri, um menino negro de 11 anos de idade. Luciana vem de uma família branca, na qual seus avós e seus pais eram todos brancos. Diante disso, a pauta racial não era discutida em seu ambiente familiar.
“A pauta racial não esteve presente na minha criação. Basicamente toda minha família por parte de mãe e de pai é branca, e hoje eu entendo que para pessoas brancas, se elas não convivem, elas têm dificuldade de perceber ou de sentir o racismo seja em que nível for, principalmente para minha família que é uma família de cunho católico, conservador, vindos do interior do nordeste. Não que eles praticassem atos racistas, mas o tema não era relevante, não fazia sentido. Então quando eu era criança nunca entramos nesse assunto em casa. Mas a própria construção social e cultural da época não dava a devida voz que hoje tem a questão racial”.

Mas em sua adolescência, Luciana se deparou com a discussão racial. Ativa em movimentos libertários e sempre buscando estar atenta às pautas minoritárias, ela começou a entender a problemática da sociedade. Já adulta e em um relacionamento inter-racial, ela entende os privilégios da sua cor, e é uma das que lutam para combater o racismo e leva a pauta antirracista adiante. “Eu já venho de um histórico com meu companheiro de vivenciar muitas situações com ele, e quando eu fui ficando adolescente e adulta isso passou a ser uma constante, uma preocupação de ser antirracista, de lutar pelas minorias. Da adolescência para fase adulta, e participando de movimentos libertários como o anarquismo, comunismo, entre outros, que traziam a discussão racial fortemente, daí enxerguei a importância de se combater o racismo. Então, desde que meu filho nasceu, sendo uma criança preta, tendo um pai preto e eu sendo uma mãe branca, nós sempre trazemos essa discussão. Com meu filho já é diferente, sempre converso sobre a questão racial, frisando que ele é preto e que não é melhor, nem pior do que a mamãe. Me atento em apresentar referências de pessoas pretas para ele”.
“De situações que eu já passei, a mais complexa foi em uma escola onde ele estudou, devia ter no máximo 120 alunos, mais ou menos. A situação foi que um coleguinha de turma do meu filho disse que não brincaria com ele, pois ele era marrom. Quando ele me relatou esse caso, na hora meu coração doeu, foi muito triste e eu tenho muito a consciência de segurar minha onda para não transparecer o que eu estou sentindo para quem está sofrendo ali do meu lado, mas nesse caso foi muito difícil, porém eu falei para ele, ‘meu amor, sua cor é linda, você é lindo, maravilhoso’, e comecei a falar das pessoas da nossa vida que são pretas e que fazem parte da nossa vida, pessoas maravilhosas como o pai dele, o avô por parte de pai, os amigos, heróis. Após saber do ocorrido fui até a escola questionar, o que acabou sendo uma coisa muito boa, porque de começo eles ficaram numa questão de ‘Ah, mas isso é coisa de criança’ e eu disse ‘Não, isso não é coisa de criança, é racismo e a criança não reproduz e inventa isso sozinha, ela aprendeu em algum lugar. Então tem que chamar os pais e conversar, pois isso é crime’. Depois disso a escola adotou várias medidas saudáveis, em trazer para as crianças autores negros se atentar para questão de pessoas com deficiência e várias outras questões de respeito ao próximo” disse, Luciana feliz com atitude da escola em buscar mudanças.

A educadora, pesquisadora e consultora de Educação Antirracista, Paula Batista fala sobre os impactos do racismo na infância. “Primeiramente, quando a criança é pequena e ela não se vê nos espaços de decisão. Nos espaços que são celebrados, que são importantes, por exemplo, ela não se vê nos desenhos, nos programas de televisão,(não vê) pessoas negras sendo consideradas como importantes. Já é desde a infância que se tem uma baixa autoestima, pois elas acabam se considerando inferiores. E quando elas vão para os espaços de socialização, como as escolas, e as crianças brancas fazem violências racistas com essas crianças, elas acabam aceitando isso porque toda a trajetória delas foi informada para elas como se elas fossem inferiores. Porque pessoas iguais a elas nunca estiveram nos espaços de decisão de poder. Então, essas violências vão corroborar com essa ideia de hierarquia racial”, enfatiza.
“Violências racistas, sistemáticas, impactam diretamente na saúde mental das crianças. Eu conheço episódios em que as crianças começaram a apresentar uma perda significativa do interesse de ir à escola, uma dificuldade maior do processamento do que era aprendido na escola e consequentemente suas notas foram ficando piores. Temos também crianças com depressão, então, são vários impactos que as crianças negras sofrem quando elas vivenciam episódios de racismo, principalmente quando isso acontece no espaço de socialização que é a escola”, afirma a educadora.
O Àwúre, iniciativa realizada conjuntamente pelo Ministério Público do Trabalho (MPT), pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) e pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), ressalta a fala de Angela Davis: “Não basta não ser racista, é preciso ser antirracista.” Ou seja, precisamos sim estudar, aprender, escutar pessoas negras e resistir com elas! Essa é uma luta de todes por uma sociedade justa, democrática e livre de preconceitos.




