“As pessoas me perguntam quando se iniciou minha luta no movimento. Eu já nasci na luta, no movimento. Mesmo antes de eu nascer, meus antepassados já lutavam pelo direito de estar no seu território, de viver em paz”. Essas são as palavras de Vercilene Francisco Dias, advogada da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq) e a primeira quilombola Mestra em Direito do Brasil.
Embora não exista uma estimativa da população quilombola no Brasil, o IBGE calcula que o país possua 5.972 localidades quilombolas, que estão divididas em 1.672 municípios brasileiros. Dessas localidades, 404 são territórios oficialmente reconhecidos, 2.308 são denominados agrupamentos quilombolas e o restante, 3.260, identificados como outras localidades quilombolas. Entre os agrupamentos, 709 estão localizados dentro dos territórios quilombolas oficialmente delimitados e 1.599 fora dessas terras.
Como assessora jurídica do Conaq, Vercilene esteve entre as primeiras do país a assinar uma ação no Supremo Tribunal Federal. Recentemente, ela também foi aprovada para o Doutorado em Direito da Universidade de Brasília (UnB). Quilombola do território Kalunga (GO), a advogada também atua no Coletivo Jurídico Joãozinho do Mangal e na ONG Terra de Direitos. Vercilene Dias era pequena quando deixou seu quilombo e foi viver no Tocantins, para estudar.
“Quando saí da comunidade eu nem sabia o que era Direito, eu queria ser Militar porque eu queria prender a pessoa que ameaçava a comunidade que eu vivia. Ameaçava meus pais, meus avós. Se dizia proprietário da terra e nós tínhamos que obedecer”. Conta Vercilene, relembrando as ameaças sofridas durante a infância.
Anos se passaram até que aquela jovem menina se tornasse uma mulher de fibra e, principalmente, se tornasse referência para muitas outras mulheres que através de sonhos realizam conquistas. Para Vercilene, a força para continuar a luta vem do exemplo das mulheres quilombolas e da inspiração para mudar o caminho das mais novas.
“Algumas vezes, eu nem sei descrever o que é esse sentimento, o que é a minha luta. As minhas conquistas inspiraram muitas mulheres. Eu sempre fui muito inspirada por mulheres na minha vida, mulheres na comunidade, mulheres que eu encontrei nos caminhos por onde trilhei e saber, hoje, que sou uma inspiração, também é muito gratificante e é o que faz muitas vezes a luta valer a pena, que é você traçar um caminho, abrir caminho para que uma outra venha após você. A gente sempre fala que não vai ficar pra sempre nessa luta, porque é difícil, é dolorosa, mas não sabemos até onde teremos nossas trajetórias interrompidas.”
O Àwúre, projeto de iniciativa do Ministério Público do Trabalho (MPT), da Organização Internacional do trabalho(OIT) e do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), atende hoje cerca de 10 mil famílias que, juntas, somam mais de 60 mil pessoas indígenas, negras, quilombolas, ribeirinhas, moradoras de comunidades periféricas e praticantes das religiões de matriz africana. Busca promover o diálogo, diversidade, pluralismo, o respeito às identidades, a tolerância, o princípio participativo e democrático, cooperação, promoção e valorização das condições de vida e trabalho desses povos.
O Àwúre se orgulha e parabeniza Vercilene Dias, mulher, negra, quilombola e exemplo de luta e conquistas!




