
Ana Madalena Sandes é antes de tudo uma sertaneja de Delmiro Gouveia – Alagoas. É administradora e especialista em Gestão Municipal e uma aprendiz permanente. Analista de Negócios de Impacto e Diversidade no Sebrae Alagoas acredita em mundo mais justo em todas as esferas.
O ano é 2017 e, em Alagoas, a discussão sobre Negócios de Impacto Socioambientais ganha cada vez mais espaço e força, culminando, um ano após, no ineditismo da aprovação pelo Sebrae Alagoas de Projeto relacionado ao tema, com o objetivo de incentivar o nascimento desses novos tipos de negócios no Estado, priorizando as classes C, D e E.
Negócios de Impacto Social são empresas que têm como finalidade a resolução de problemas sociais e/ou ambientais, atrelando esse propósito ao lucro, sendo que a resolução desses problemas prioriza geralmente as pessoas das classes C, D e E. As classes sociais, C, D e E são classificadas de acordo com a renda familiar: até dois salários mínimos – classe E; de dois a quatro salários – classe D e a classe C, acima de quatro a dez salários mínimos. Com base nessa classificação, segundo dados do IBGE, cerca de 80% da população brasileira encontra-se inserida nessas três classes sociais. À medida em que o Projeto, e mais conexões aconteciam no trabalho com os negócios de Impacto, foram-se descortinando realidades até já discutidas, mas fora do foco específico para serem trabalhadas através do empreendedorismo. Foi possível, por exemplo, constatar a transversalidade de mulheres, pessoas negras e o público LGBTQIA+ com as classes C, D e E. Tal constatação reveste-se de especial importância quando se leva em conta o fato de que mais de 50% da população brasileira é do sexo feminino, 54% da população se autodeclara negra ou parda e estimativa (embora se considere um percentual subestimado) de que 10% se declaram LGBQITA+.
No mundo dos negócios, o domínio ainda é masculino, branco e heteronormativo. Mulheres ainda faturam menos, acessam créditos com juros mais altos e se dedicam menos tempo às suas atividades negociais, haja vista as demandas que sobre si recaem quanto aos cuidados com o lar e os filhos, uma vez que ainda não há uma divisão igualitária nos serviços domésticos entre homens e mulheres. Segundo dados apontados por estudo realizado pelo Sebrae sobre Empreendedorismo Feminino, essa situação ainda foi agravada durante a pandemia, afetando mais as mulheres, levando-as ao fechamento de seus negócios, por – novamente – terem que se dedicar aos familiares enfermos ou aos filhos que não estavam indo à escola. Em relação às pessoas negras e pardas, mais de 80% estão na informalidade, 57% acreditam que sofrem preconceito quando tentam abrir um negócio, e a renda média corresponde à metade da renda média do empreendedor não negro, conforme apontam dados de estudo feito pela Locomotiva juntamente com a Feira Preta. No tocante à articulação com o público LGBTQIA+ que tem pretensão de empreender, foi possível identificar um certo grau de dificuldade, já que muitos deles empreendem de forma autônoma e solitária, e, na maior parte das vezes, sem direcionar seus produtos à causa LGBTQIA+.
Dentro do Projeto, e visando ao trabalho com o público LGBTQIA+, a partir de reuniões com lideranças e representantes desse público, dois problemas foram apresentados: dificuldade de identificar as pessoas pertencentes a esse público que empreendiam e a ausência de produtos ligados à causa LGBTQIA+ dentro do Estado, transferindo essas demandas de compra para sites ou obtidos em viagens para fora de Alagoas. Ainda nessa convivência com as lideranças, outro problema foi apontado quanto à inserção desse público nos negócios de impacto social. É que dentro do LGBTQIA+, o público mais vulnerável são as pessoas transexuais, as quais, segundo a Associação Cultural de Travestis e Transexuais de Alagoas, 80% da sua população feminina encontra-se na prostituição, com baixos níveis de escolaridade e até mesmo analfabetismo, resultante, muitas vezes, de um histórico de exposição ao bullying por professores ou colegas. Outro dado relevante é o preconceito em relação à empregabilidade, já que poucos empregam pessoas transexuais. Assim, o empreendedorismo seria uma oportunidade de mudança de vida e empoderamento para essas pessoas.
Assim, com base na pluralidade apresentada na sociedade, não se pode negar que é na diversidade que conseguimos enriquecer os nossos repertórios e nunca ter um único olhar sobre determinado tema. Essa pluralidade possibilita mais criatividade, elemento fundamental para o empreendedorismo sustentável que, por sua vez, gera negócios lucrativos respeitando valores como igualdade social, de gênero, de raça e de orientação sexual.




